GARGALHANDO COM BECKETT
Eu preciso sentir o sol, árido e merediano.
Eu preciso sentir o sol em meu rosto.
Eu preciso sentir o sol querendo me destruir
como se eu fosse um muro caiado.
Eu preciso sentir o cheiro das tangerinas
expulsando qualquer idéia de exílio.
Mas abro o livro; Fin de Partie, Beckett,
vejo o rosto velho de Beckett,
vejo a sua cara marcada por sulcos profundos,
vejo os seus olhos muito abertos
e é como se ele quisesse me hipnotizar,
é como se quisesse ter mais sentido que o sol,
é como se quisesse ser mais forte que o sol
e eu sou o muro caiado, apenas o muro caiado,
a esfinge vazia de sentidos.
Leio Beckett: outro homem de nome estranho,
o seu nome ecoa como um trovão na tarde quente
e sufocada o cheiro das tangerinas
e não há mais fuga possível.
Beckett: outro enigma, ou talvez algo mais perverso;
talvez outra esfinge vazia de sentidos.
Eu e ele, duas esfinges, uma diante da outra -
ele, esfinge de olhos mordazes,
olha-me como se eu fosse o enigma,
e eu, esfinge amedrontada e confusa,
olho-o e não sou capaz de decifrar
nem mesmo a razão de estar aqui, expondo-me
aos olhos mordazes e hipnóticos dessa esfinge.
Eu e Beckett: duas esfinges vazias de sentidos,
ou talvez apenas um, talvez seja possível
que um de nós conserve um sentido
enquanto o outro é o mais puro absurdo.
Mas não sei em quem ou como;
talvez o sentido esteja nele
(homem morto encenado em teatros),
talvez o sentido esteja em mim
(homem vivo que frequenta teatros),
ou talvez o sentido esteja em ambos
(homem morto e homem vivo)
e um anule o outro e ele gargalha
e eu levanto-me e bato palmas.
Mas agora não quero aderir aos aplausos;
agora quero o silêncio
e se não é possível guardar o silêncio
quero gargalhar também, muito,
gargalhar até cuspir sangue,
gargalhar com amargura e sarcasmo,
gargalhar por não saber o que é amargura,
gargalhar por não saber onde termina o sarcasmo
e onde começa o desespero, a angústia,
que está aqui, presente, palpável, sólida.
A angústia que é o vento, o ar que respiro.
A angústia que é o trovão na tarde quente.
A angústia que é o calor que invade o quarto.
É apenas primavera e faz tanto calor
mas troveja, pode chover, tomara que chova,
tomara que não haja fuga possível
e tomara que alguém venha, algum emissário,
e diga não há caminho possível
ou simplesmente no way out.
No way out, no way out: as palavras viram música.
Eu finalmente adormeço
e em meu sono paira o cheiro das tangerinas.
Daniel Francoy