O Desaparecido


luz que ultrapassa maio

     AO ROSTO DE ISABELLE/EVA GREEN
 
     Teve início em maio
     e foi um lento suicídio.
     Quantos mortos, quantos silêncios
     sobrevieram depois?
 
     Hoje os meses são todos iguais –
     já não há maio e o teu rosto
     é uma máscara que sempre existiu
     (antes da tua alma, do teu modo de rir)
     e sempre existirá.
 
     E mais quantas canções, quantos poemas
     antes que alguém o destrua?
     Muitos, é certo, mas pensar assim
    é estúpido. Maio já não existe,
     uma velha tosse no assento ao lado
     e eu, frente à tela de cinema,
     vejo o teu corpo banhado de luz
     e mais – as imperfeições dos seios,
     o sexo castanho, e na face as marcas
     que poucos homens deveriam ver.
     É uma beleza demasiado humana
     para ser agraciada com a imortalidade.
     Talvez por isso seja doloroso
     contemplá-la como se tu fosses
     uma dessas meninas alegres
     a quem se pode amar num dia de sol.
 
     Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 20h33
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18 de dezembro de 2002

 
 
David Hockney
 


Escrito por Daniel Francoy às 02h31
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luz que precede o inverno

   ÚLTIMO POEMA PARA A TRISTEZA DE MILDRED
 
   Como dizer que a sua tristeza
   é o poema que desejo escrever?
   Até sobre a sua alegria sei pouco.
   Eu só a conheço debaixo do sol:
   não sei se os seus olhos, castanhos,
   continuam castanhos quando chove
   ou se eles escurecem como os olhos
   de uma mulher que amei certa vez.
   Também nunca a vi dormindo,
   não sei como a primeira luz da manhã
   desliza sobre o seu rosto
   e também não sei se essa mesma luz
   faz o castanho dos seus olhos
   brilhar como mel refletindo o sol.
   Também não sei o gosto de seus beijos
   e nunca ouvi as canções que você ouve
   quando se descobre apaixonada.
   Conheço apenas o seu riso
   e como o sol, no rigor do meio-dia,
   enrodilha-se em seus cabelos ruivos.
   Uma vez você disse estar triste
   mas a tristeza me pareceu timidez
   e tímido eu não soube ir além
   de seus olhos, seu pudor, sua tristeza.
   Tampouco sei o que é amar
   durante o tênue mês de maio.
   Foi em novembro que tive
   a mulher cujo azul dos olhos
   se acizentava nas tardes de chuva.
   Após ela pensei que você seria a mulher
   que um homem ama após aprender
   a amar e a perder o que ama.
   Mas tão distantes nos mantivemos
   e no entanto ainda há um resto de luz:
   com essa luz invento a sua tristeza
   (contemplo a minha inútil ternura)
   e sob essa luz (luz que predece o inverno)
   vou percebendo qual é a dor de sentir
   dentro do próprio peito um fruto
   maduro e ainda não colhido.
 
   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 00h36
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maio

   POEMA DO MAIS ALEGRE MAIO

   Ninguém precisa da minha ternura
   mas o mesmo acontece com a tristeza
   e a alegria, a minha mais pura alegria
   é o meu bem mais precioso e inútil.
   Tenho vivido sem me sentir estrangeiro
   e o meu exílio é o meu coração:
   não acredito que exista outro céu de maio
   com um luar belo como o que vejo agora.
   Há também as mulheres, as que tenho amado,
   as que tem me desprezado, as impassíveis,
   as que sabem rir e as que sabem acolher
   o silêncio de meu coração inconsolável.
   Não há, nas outras cidades do mundo,
   mulheres como as que tenho amado
   e olhe que vejo-me capaz de amar
   até as mulheres mais feias e impuras.
   Mas tudo isso é outro exemplo
   de idiota filosofia - sei que o rio mais belo
   é o rio que passa pela minha aldeia
   e se estou alegre é um fechar de olhos
   o poema que desejo escrever.
   Não quero falar sobre a vida
   e o que ela tem de grave
   e o que ela tem de sagrada:
   ficaria feliz e saberia-me pleno
   se soubesse cantar o sabor,
   o mais ácido sabor das laranjas
   que tenho provado neste outono
   de noites quentes e enluaradas.
 
   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 00h36
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o mais triste maio (há dois anos)

   "IRROMPE SERENA A TARDE..."

   Irrompe serena a tarde de maio,
   a tarde que nos leva até a praça
   onde cada homem canta o seu exílio
   e onde pungentes flores são vendidas
   numa cidade, uma babilônia
   ao mesmo tempo casta e bestial.
   Assim permaneço, a contemplá-la
   enquanto ela colhe rosas vermelhas
   e respira o perfume dos jasmins
   como um inaudito sopro de vida,
   a centelha do amor que perseguimos
   enquanto vem o brando entardecer,
   o derradeiro ardor do sol poente
   e as sombras adejando sobre a casa,
   mas agora a casa está redimida:
   há um vaso com lírios e crisântemos
   na sala de jantar, o que convém
   à imensa fragilidade da carne.

   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 01h13
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aos sons de moon river

 
   PERGUNTA PARA FICAR ALEGRE
 
   Se me lembro dos seus olhos e fico triste
   não vou ouvir sinatra e não vou beber conhaque
   que isso aumenta a minha tristeza.
   Vou ler aquele poema chinês escrito há mil anos
   e que fala das acácias que perdem o cheiro
   e da insensatez que é amar ou estar lúcido.
   Depois vou até o fundo do quintal,
   contemplo o céu estrelado, enluarado
   e respiro as acácias, as rosas, os jasmins.
   Se a vida perdura, único milagre possível,
   e se o aroma das flores volta após o inverno
   porque não pensar que coisas simples e pequenas
   - como o amor ou a tristeza de um homem -
   tenham solução e que a alegria vai nascer
   antes de raiar a próxima aurora?
 
   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 01h27
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a boca que me beija

   MÔNICA
 
   Demorei a escrever um poema a Mônica
   porque Mônica demorou tanto a vir.
   Ela veio após os poemas de garota
   e também depois do amor e após os versos
   mais tristes que fui capaz de escrever.
   Hoje sei que não sou o mesmo homem
   que escreveu aquelas cartas de amor.
   Mas o que importa isso? Ainda sou homem
   e de meu coração ainda transbordam
   sentimentos esdruxúlos e ridículos.
   Não sei se a amo ou quanto a amo, mas é
   Mônica quem hoje me beija a boca
   e por isso Mônica é a mais linda das mulheres.
 
   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 01h51
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mais estradas

   ANA CAROLINA

   Na estrada o cheiro de terra úmida
   e folhas de bananeiras ensopadas.
   O sol volta no entardecer, cristalino,
   e bate no rosto de Ana Carolina.
   Ela me olha, exausta da viagem,
   e pergunta se o mar está longe.
   Sim, ainda falta muito para o mar,
   falo enquanto a olho de soslaio.
   Ela ajeita o cabelo, respira o entardecer,
   diz já sentir o cheiro da maresia,
   cantarola águas de março
   - é promessa de vida no teu coração -
   e sorri para depois se calar
   enquanto a noite pousa sobre o carro.
   As estrelas são vagalumes no lusco-fusco,
   o que é verde mergulha nas sombras
   e quando o luar nos invade
   vem a alegria das noites de verão.
 
   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 01h34
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o azul ausente (corrigido)

   POEMA DO AMOR AUSENTE
 
   Não me importa que eu não tenha tocado o seu rosto
   e que o azul dos seus olhos, para mim,
   seja como o azul da manhã - o mais lindo
   azul que os meus olhos podem imaginar.
 
   Também não importa que por trás de seu riso
   exista apenas um nome, e não um corpo
   talhado para o amor, concebido para o amor.
   É sempre assim ao perder uma mulher que amamos:
   o seu corpo é levado para muito longe
   e o que resta é um nome, talvez uma certeza,
   qualquer coisa que o vento desfaça
   como um poema escrito na areia.
 
   O que importa é que você exista
   e que, afundado em sua ausência,
   eu saiba que o único amor possível
   é o que nos permite amar um sorriso
   como quem ama o que há de mais sagrado
   na vida e em nós mesmos.
 
   Mas isso é muito pouco, talvez pense
   o meu coração quando ele estiver mais velho.
   Tampouco isso me importa:
   para aprender o desapego é preciso aprender
   a ser um homem livre, um homem
   que escolhe as verdades nas quais acredita
   e um homem que se cala, humilde,
   perante o mistério das esfinges que ergueu
   e que o vento não sabe desfazer.
 
   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 03h39
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porque o outono está chegando

   OS ÚLTIMOS IPÊS E AÇUCENAS
 
   Porque o outono está chegando
   vou pela alameda das flores
   e vejo - amarelos e lilases e brancos -
   os últimos ipês e açucenas.
 
   Cai uma garoa mansa, tão monótona.
   A cidade, lá embaixo, é o silêncio
   e há uma luz parda sobre os telhados
   que se fundem no anoitecer.
 
   Em casa hei de calar
   os versos que apenas traduzem
   as minhas vontades impuras
   a minha mágoa escancarada.
 
   Ainda que a derradeira lucidez
   - verdade vazia e inútil - a poesia
   não há de confessar aos ventos
  o meu medo de morrer sozinho.
 
   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 19h16
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insônia

 
    Edward Hopper, "Hotel Room"


Escrito por Daniel Francoy às 01h20
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primeiros poemas

   PRIMEIRO POEMA PARA O SORRISO DE MILDRED
 
   Como dizer que amo
   o sol que arde atrás do seu rosto?
   Não a conheço. Nada sei
   sobre a sua tristeza,
   sobre o seu coração magoado,
   sobre os mortos que enterrou
   e os corpos que não pode mais amar.
   Olho-a e sei apenas de mim:
   amei e fui amado
   por mulheres imensamente tristes;
   eu as abracei e o que ofereci
   foi toda a minha fraqueza.
   Agora sei que sou apenas um homem
   e se a vejo, sei que é apenas uma mulher
   mas também sei do sol,
   do seu modo de rir, da sua juventude,
   das flores que gosta de colher
   e que para o seu coração tão indefeso
   amar um corpo ou amar uma alma
   traz a mesma alegria
   e a mesma plenitude.
   Por isso a quero,
   porque o seu rosto é o sol,
   porque a sua alma é um véu de luz,
   porque o seu corpo é uma orquídea que se abre
   e depois adormece ao relento.
 
   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 00h05
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um calmo poema de amor, para deixar o domingo menos triste

   CAROLINA

   Acordamos e somos tão frágeis.
   Partilhar o mesmo sono, a mesma manhã
   é a intimidade mais plena que existe
   entre um homem e uma mulher.
   Mas não quero que veja o meu rosto, estou feia,
   diz ela, e mergulha a face em meus ombros
   até quase adormecermos de novo.
   Não, você não está feia: o seu rosto ensonado
   é como a manhã do mundo.
   Ela ri e pela primeira vez permite
   que eu veja seus olhos ainda vermelhos de sono.
   Depois ri de novo, e tímida diz
   agora vou quebrar o encanto
   pois tenho fome.
   Não, você não quebra o encanto. E saio
   para comprar pão e leite na padaria
   - isso basta, manteiga já temos -
   e ao voltar ouço uma canção alegre
   e sei que ela está no banho, onde se perfuma
   e se prepara para a tarde de calor.

   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 18h32
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nossa jovem miséria

OPERÁRIOS
 
    Ó a quente manhã de fevereiro. O vento Sul, importuno, veio despertar nossas lembranças de indigentes absurdos, nossa jovem miséria.
    Henrika trajava uma saia de algodão, de quadrados brancos e escuros, que deve ter sido usada no século passado, um gorro cheio de fitas e um lenço de seda. Era mais triste que um luto. Dávamos uma volta pelo subúrbio. O tempo estava enevoado e esse vento do Sul excitava todos os incômodos odores dos jardins devastados e dos prados ressequidos.
    Isto não devia causar a minha mulher tanta fadiga quanto a mim. Numa poça deixada pela inundação do mês anterior numa vereda bastante alta ela me mostrou peixes pequeninos.
    A cidade, com sua fumaça e seus rumores de ofícios, seguia-nos muito longe nos caminhos. Ó o outro mundo, a moradia abençoada pelo céu e as sombras das árvores! O vento Sul me fazia recordar os miseráveis incidentes de minha infância, meus desesperos de verão, a excessiva quantidade de força e de ciência que o destino sempre afastou de mim. Não! não passaremos o verão neste país avaro onde não seremos jamais senão órfãos noivos. Quero que este braço endurecido não arraste mais uma imagem amada.
 
   Arthur Rimbaud, trad: Lêdo Ivo.


Escrito por Daniel Francoy às 11h08
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rostos 3

   GARGALHANDO COM BECKETT
 
   Eu preciso sentir o sol, árido e merediano.
   Eu preciso sentir o sol em meu rosto.
   Eu preciso sentir o sol querendo me destruir
   como se eu fosse um muro caiado.
   Eu preciso sentir o cheiro das tangerinas
   expulsando qualquer idéia de exílio.
   Mas abro o livro; Fin de Partie, Beckett,
   vejo  o rosto velho de Beckett,
   vejo a sua cara marcada por sulcos profundos,
   vejo os seus olhos muito abertos
   e é como se ele quisesse me hipnotizar,
   é como se quisesse ter mais sentido que o sol,
   é como se quisesse ser mais forte que o sol
   e eu sou o muro caiado, apenas o muro caiado,
   a esfinge vazia de sentidos.
   Leio Beckett: outro homem de nome estranho,
   o seu nome ecoa como um trovão na tarde quente
   e sufocada o cheiro das tangerinas
   e não há mais fuga possível.
   Beckett: outro enigma, ou talvez algo mais perverso;
   talvez outra esfinge vazia de sentidos.
   Eu e ele, duas esfinges, uma diante da outra -
   ele, esfinge de olhos mordazes,
   olha-me como se eu fosse o enigma,
   e eu, esfinge amedrontada e confusa,
   olho-o e não sou capaz de decifrar
   nem mesmo a razão de estar aqui, expondo-me
   aos olhos mordazes e hipnóticos dessa esfinge.
   Eu e Beckett: duas esfinges vazias de sentidos,
   ou talvez apenas um, talvez seja possível
   que um de nós conserve um sentido
   enquanto o outro é o mais puro absurdo.
   Mas não sei em quem ou como;
   talvez o sentido esteja nele
   (homem morto encenado em teatros),
   talvez o sentido esteja em mim
   (homem vivo que frequenta teatros),
   ou talvez o sentido esteja em ambos
   (homem morto e homem vivo)
   e um anule o outro e ele gargalha
   e eu levanto-me e bato palmas.
   Mas agora não quero aderir aos aplausos;
   agora quero o silêncio
   e se não é possível guardar o silêncio
   quero gargalhar também, muito,
   gargalhar até cuspir sangue,
   gargalhar com amargura e sarcasmo,
   gargalhar por não saber o que é amargura,
   gargalhar por não saber onde termina o sarcasmo
   e onde começa o desespero, a angústia,
   que está aqui, presente, palpável, sólida.
   A angústia que é o vento, o ar que respiro.
   A angústia que é o trovão na tarde quente.
   A angústia que é o calor que invade o quarto.
   É apenas primavera e faz tanto calor
   mas troveja, pode chover, tomara que chova,
   tomara que não haja fuga possível
   e tomara que alguém venha, algum emissário,
   e diga não há caminho possível
   ou simplesmente no way out.
   No way out, no way out: as palavras viram música.
   Eu finalmente adormeço
   e em meu sono paira o cheiro das tangerinas.
 
   Daniel Francoy


Escrito por Daniel Francoy às 18h33
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Histórico
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13/06/2004 a 19/06/2004
09/05/2004 a 15/05/2004
02/05/2004 a 08/05/2004
25/04/2004 a 01/05/2004
18/04/2004 a 24/04/2004
28/03/2004 a 03/04/2004
21/03/2004 a 27/03/2004
14/03/2004 a 20/03/2004
07/03/2004 a 13/03/2004
29/02/2004 a 06/03/2004
22/02/2004 a 28/02/2004
15/02/2004 a 21/02/2004




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